Causas e Efeitos


16/05/2013


A gente é quem faz a carestia (Bruno de Castro)

A curiosidade mórbida que se tem pela sexualidade alheia me assusta. Desde sempre. E acho que vou terminar meus dias sem considerar normal a necessidade popular de saber com quem o outro dorme, onde dorme, de que forma dorme, há quanto tempo dorme e por qual motivo dorme. É doente? É sem-vergonha? Maria dorme com João porque Maria ama João. Aline dorme com Ana porque Aline ama Ana. Renan dorme com Marco porque Renan ama Marcos. Ou, simplesmente, porque sentiram-se atraídos um pelo outro para encontros sexuais. Simples assim. Sem dogmas de qualquer espécie. Se há o gostar e a vontade de permanecer junto (inclusive nos direitos civis), por quê quem gosta de outra pessoa do mesmo sexo não pode casar? Valer-se de argumento religioso é algo - ao meu ver - subjetivo, visto a inexistência de consenso entre as crenças no tocante ao casamento gay. Vai contra o conceito de família? Mas qual o conceito único e irrefutável de família nos dias de hoje? Há controvérsias. Comemoro a decisão do CNJ por entender que o amor de Aline-Ana e Renan-Marco não é menos valioso do que o de João-Maria. Porque não é o gênero que constrói o sentimento. O amor nasce de si. Assim como morre em si. E não é possível que, em plena era de globalização, ainda exista quem sinta-se no direito de ter uma vida a dois privando outras pessoas do mesmo ideal. Contudo, lamento a decisão do CNJ ter se dado por uma regra que obriga os cartórios a realizar casamentos. Esta é uma matéria que já devia ter sido votada pelo Congresso há anos. Mas a Casa política mais importante do País prefere a inércia. Tem receio da repercussão. Para boa parte dos políticos, assegurar direitos à população LGBTT significa perder voto do eleitorado conservador que classifica essas medidas como “proteção aos gays”. A hipócrita tese da “heterofobia”, embasada no esquecimento de toda a exclusão e violência sofrida por homossexuais na história. Espero dias com brasileiros menos preocupados com a orientação sexual alheia e mais atentos à atuação dos deputados federais e senadores e ao caos em que se encontra o falido sistema de segurança pública. Ou somente com o simples ato de acordar e trabalhar para colocar dinheiro na própria casa para pagar as próprias contas. Precisamos aprender a enxergar a alegria do outro não como uma derrota pessoal, mas como sinal de um mundo mais palatável para se viver. Porque a vida é um barato. A gente é quem faz a carestia criando empecilho para prejudicar a felicidade alheia. Aline, Ana, Renan e Marco, ao cartório!

Escrito por Polonius às 10h47
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Histórico